Exposição "Mil Moradas e Uma" (Individual) - Palácio das Artes - Belo Horizonte - Minas Gerais - 2009

ad infinitum

O que arrebatou Adel Souki foi a idéia de infinito. Idéia que ela encontrou na palestra de Borges sobre as histórias inventadas e reunidas em diversas versões e edições e conhecidas como “As Mil e Uma Noites”. A beleza deste nome encantou Borges, para quem “de Mil” é quase sinônimo de infinito e “Mil e Uma” é ir além do infinito. Ainda segundo o escritor argentino, os arábes dizem que ninguém pode ler “As Mil e Uma Noites” até o fim. Não por tédio, mas porque se sente que o livro é infinito. Os árabes dizem e Borges reafirma:
Trata-se de um livro tão vasto que não é preciso lê-lo. Ele é parte prévia de nossa memória”.
O que encantou Borges, envolveu Adel. As Mil Moradas e Uma também estão inscritas em nosso cotidiano, em nossas memórias, em nossos corpos, em todos os nossos sentidos. E, assim como o livro, enredam tramas, fantasias, sonhos, tristezas, alegrias, devaneios, mistérios, rituais. E, mesmo porque não formam um texto, também não precisam e não podem ser lidas. As Moradas se apresentam a partir de Mil e Uma mãos, infinitas idéias. São moradas imaginadas, sonhadas, vividas e construídas por crianças e jovens da cidade, da periferia e da zona rural. Foi com elas que Adel compartilhou seu desejo de construção de Mil Moradas e Uma, um projeto que só faz sentido com o outro, no coletivo, na troca e na generosidade de cada um que se dispôs a aceitar o desafio de fazer a Uma morada. Apenas Uma, além das outras Mil, construída com argila e a partir de escutas, apropriações, transformações e desprendimentos. Tudo no plural, mas demarcado por singularidades, subjetividades.
As Mil Moradas e Uma definitivamente não se fecham. Pelo contrário, o espaço se dilui impregnado de vozes, atravessando muros e paredes descobertas, e reverbera pelas memórias suscitadas e gravadas no processo de modelagem do barro, na construção das Moradas. Os ruídos, as conversas e os comentários, que compõem a instalação, reativam alguns caminhos percorridos pelas crianças e jovens e chegam até aqui para nos levar até lá, não sei exatamente onde. Voyeurisme? Acho que não... Me parece mais um deslocamento provocado pela intenção de compartilhar experiências ad infinitum. (Juliana Gouthier)

Catálogo "Mil Moradas e Uma" (clique para vizualizar)

"...o quarto de todo mundo é junto.pegava dois lençois, costurava e colocava palha dentro.tinha uma bacia grandona de tomar banho. pelo buraco da laje a gente vê a caixa d’ água. dou graças a deus por minha casa. a água do banho era jogada pela janela até chegar na fossa. três quartos, uma sala,banheiro e porão. a goteira já estragou três televisões.como pode entrar na casa sem porta? abria a flanela no chão e deitava bem quentinha. a água era esquentada numa lata de banha. lá em casa moram três famílias. a gente colocou um cano lá e a água saiu bem limpinha..." (frases das crianças envolvidas no trabalho)